Eu me cuido, eu posso falar.

Eu costumo dizer que evito ao máximo possível cagar regra, e por conta disso, reprovo fortemente quem tenta cagar regra para mim. Mas existe uma seara específica em que todo mundo aponta o dedo, e sente um certo prazer sádico ao apontar o dedo: quando diz para outra pessoa que ela é/está gorda. Nesse ponto, todo mundo aceita o bullying, todo mundo aplaude o agressor, e muitos engrossam o coro.

gordofobia

Um amigo meu no meio de uma das muitas tretas que eu me meto no facebook veio xingar alguns interlocutores via mensagem e o principal argumento que ele usou para diminuir uma delas foi acusá-la de ser gorda. (1) como se o peso dela tivesse ALGUMA COISA a ver com a discussão e os argumentos que ela apresentou; (2) se aproveitando do fato de que a “gordura” é supostamente o pior pesadelo principalmente para mulheres. Ele justificou dizendo que “falo mesmo, eu me cuido!”

Como se as escolhas que você fez pra sua vida, independente dos motivos, te dessem carta branca para julgar e detonar as escolhas que outras pessoas fizeram pra vida delas. Como se gordos merecessem desprezo, reprimendas, gozação, deboche porque fizeram as escolhas erradas – ó, você, rei das escolhas acertadas e indefectíveis.

Para mulheres a situação é ainda mais séria. Você não vê tantas reprovações públicas e tanta pressão para o homem ter a silhueta perfeita como vê para a mulher. Na verdade nosso corpo inteiro é mostrado, de diversas formas e por diversos canais, como defeituoso, como algo que precisa de conserto. Pêlos não podem existir, cabelos têm que ser lisos e louros, unhas tem que estar pintadas impecável e carnavalescamente, pés devem estar em saltos, a vagina tem que ser branquinha (what? não tá sabendo da última moda?), cremes para isso, cremes para aquilo, esfoliantes, tônicos, hidratantes, uma lista sem fim de cuidados pessoais que tomam algumas horas (e muitos dinheiros) do dia de uma mulher que não é feminista, é feminina.

E daí, claro, não dá pra ignorar a pressão midiática. A acusação mais básica e mais real, do padrão de beleza que prega a magreza extrema quase doente. Pessoas magérrimas são lindas, são modelos, estão na TV, nos outdoors, vestindo aquela blusa, carregando aquela bolsa, usando aquelas jóias, sendo tudo o que queremos ser – mas não queremos só o que elas têm e vestem, queremos SER ela, o pacote completo. Se, além de não sermos magras daquele jeito, ainda formos gordas, aí é merda na certa. Os anos de pressão social, as pessoas olhando com olhar reprovador na fila do McDonald’s, a infernal vigilância alheia.

Essa vigilância alheia às vezes se traduz em preocupações “genuínas” (yeah, right) dos amigos e colegas, receitando modos de vida mais saudáveis, dietas mirabolantes, e o velho comentário “você tem o rosto tão bonito…”. Essa preocupação excessiva com a saúde alheia soa mais como uma arrogância bem perversa, de quem quer se sentir melhor apontando as supostas falhas do outro. A gente esquece que ser magra nem sempre é a vontade de toda pessoa gorda e que nem todo gordo é doente (não é exagero: conheço muitos magros que comem muito, mas MUITO mal nutricionalmente).

O próprio termo gordo é usado como insulto, como xingamento, como sinônimo de feio, descuidado, relaxado, preguiçoso. Quando se chama a pessoa de gorda, é com a intenção de suprimir qualquer virtude ou qualidade que a pessoa possa ter – e que, obviamente, não corresponde a realidade, já que todos nós temos muito mais características do que aquelas relativas à nossa forma física. Essa coisa da supremacia magra, das pessoas que se acham muito melhores ou muito especiais ou muito vencedoras porque conseguem comer bem, ou porque conseguem malhar, ou simplesmente porque conseguem manter um peso considerado adequado é tão ignorante quanto todas as outras fobias. Porque independente da justificativa que esteja por trás do preconceito (preocupação com a saúde do outro? faz-me rir…), os efeitos na pessoa que escuta os comentários, os conselhos e as descriçoes são bem mais negativos do que qualquer outra coisa. Ou seja: você não ajuda em nada, só atrapalha.

Vale a pena ler os posts abaixo:

Gordofobia, um assunto sério, no Blogueiras Feministas

Gordofobia em questão, no Feminismo sem Demagogia

Gordofobia vende e nós compramos, no A maior digressão do mundo

Gordofobia: por que você não gosta de gordos?, no Maggníficas

Gordofobia: nunca chame uma criança de gorda, no Mamíferas

Um comentário sobre “Eu me cuido, eu posso falar.

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