Bechdel Test – seu filme preferido passa nesse teste?

O Bechdel Test é um teste que avalia a presença feminina em filmes e mede a relevância de seus papéis na “trama”. Para passar nesse teste, um filme tem que responder afirmativamente essas 3 perguntas:

1 – Existem no filme duas ou mais mulheres com nomes?

2 – Elas conversam entre si?

3 – Elas conversam entre si sobre algo que não seja um homem?

Parece tão besta mas qualquer um se surpreende com a quantidade de filmes que não passa no teste. Batman, o Cavaleiro das Trevas. District 9. Quem Quer Ser Um Milionário. Shrek. Watchmen. Supremacia Bourne. Identidade Bourne. Transformers. O Grande Lebowski. Wall-E. Onze Homens e Um Segredo. Piratas do Caribe (todos). Austin Powers (todos). Men in Black. Clube da Luta. Milk. Cães de Aluguel. Senhor dos Anéis (todos). O Show de Truman. Trainspotting. Missão Impossível. Coração Valente. Toy Story. Gladiador. X-Men (todos). Harry e Sally. De Volta Para o Futuro (todos). Tomb Raider. Pulp Fiction. Entrevista com o Vampiro. Seven. Esqueceram de Mim. Você pode ver o Feminist Frequency falando justamente isso nesse vídeo:

O Bechdel Test não é uma prova de que o filme é feminista ou mesmo de que o filme é bom: apenas de que há presença feminina. E não há. É sintomático isso. (não dá pra negar que existem filmes bons sem uma mulher sequer – não é esse o ponto)

Parece besteira. Mas lembrou-me um trecho marcante do post da Cláudia Regina no Papo de Homem, falando sobre privilégio masculino, que tanto homens quanto mulheres não conseguem ver por estar tão naturalizado entre todos nós.

Tente imaginar um mundo onde, por cinco mil anos, todos os homens foram subjugados, violentados, assassinados, podados, controlados. Tente imaginar um mundo onde, por cinco mil anos, só mulheres foram cientistas, físicas, chefes de polícia, matemáticas, astronautas, médicas, advogadas, atrizes, generais. Tente imaginar um mundo onde, por cinco mil anos, nenhum representante do seu gênero esteve em destaque, na televisão, no teatro, no cinema, nas artes. Na escola, você aprende sobre a história feita pelas mulheres, a ciência feita pelas mulheres, o mundo feito pelas mulheres.

E o mundo é assim mesmo, desse jeito aí, só que ao contrário. Quando a gente lê sobre o mundo dominado por mulheres, parece um absurdo. Nunca, jamais!, o mundo dominado por um gênero! Jamais aconteceria, que absurdo! Mas acontece: só que não pelo gênero feminino, e sim por homens.

E não dá para pensar nisso como um problema secundário. Ou como um não-problema. Porque a língua e as suas manifestações (literatura, cinema, arte, cultura) “vale” o que “valem” na sociedade os seus falantes, isto é, vale como reflexo do poder e da autoridade que existem nas relações econômicas e sociais. Ou melhor, como disse Paulo Freire: “só quem tem poder define, só quem tem poder descreve, só quem tem poder perfila” e, portanto, só quem tem poder faz história, escreve a história, e escreve livros e faz filmes. Então é sim, muito significativo e sintomático que as mulheres não estejam nos filmes.

Em um outro vídeo do Feminist Frequency, ela avalia os indicados ao Oscar de 2011 de acordo com o Bechdel Test e, adivinhem? Apenas dois filmes passam nesse teste. Vale a pena assistir:

E o problema é sistêmico. Não é um ou outro diretor que pá, não curte mulheres e exclui elas da parada toda. É uma indústria inteira fundada dentro de uma sociedade inteira que gira em torno de homens.

Tem um site (bechdeltest.com) onde você pode consultar filmes que passam (ou não) nesse teste, e também avaliar os filmes que assiste e enviar para lá. Fiquei inicialmente feliz em saber que, dos 3479 filmes avaliados, 53% passam nas 3 perguntas. Porque pensei que fossem menos. Mas logo mudei de idéia: peralá… Só 53% dos filmes passam nessas três perguntas absolutamente ridículas? Veja bem, nenhum dos critérios do teste é o filme ter uma mulher como personagem principal, ou ser centrado num núcleo feminino. Os critérios simplesmente dizem respeito a EXISTIREM mulheres que SIGNIFICAM alguma coisa no filme. E só pouco mais da metade dos filmes avaliados cumprem essas “exigências”.

Bechdel Graph

O que concluímos, crianças?🙂

Eu acharia que não é necessário dizer, mas direi mesmo assim: não significa que eu seja a favor de uma inversão completa, não significa que eu quero muito que as mulheres dominem o mundo assim como os homens o vem fazendo há 5 mil anos. Só um pouco mais de equilíbrio, e talvez de existência feminina, que tal?

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