Guest post: Mulheres comestíveis

Quando fiz um breve questionamento sobre a minha idade e a relação direta entre ela e ser tratada como objeto de sexo fácil e descompromissado (O peso da idade avançada), minha mãe (Rosane Magaly Martins) respondeu prontamente. Porque ela também já foi solteira quando adulta e claro que não se surpreendeu com as minhas observações. Sugeri então que ela escrevesse um post também comentando o assunto, e aqui está o resultado. Mais sobre ela você pode saber pelo blog Pulo no Vazio.

Há mulheres pra namorar no portão, ainda virgens. Há aquelas escolhidas para casar, não mais virgens. Há outras feitas para ser mãe dos filhos dele, com alguma experiência. Existem outras categorias de mulheres: pra tarar, pra comer, pra foder, pra trabalhar, pra exibir, pra curtir, as descartáveis. Quando nos tornamos mulheres passamos a figurar no cardápio de vários modelos de homens que nos tratam assim, em categorias consumíveis, como tudo hoje é consumível e descartável. Já passei por todos os modelos e figurei em diversos cardápios. Namorei no portão virgem, fui escolhida pra casar, fui mãe, fêmea, mulher gozante e livre para ter ao meu lado os homens que eu quisesse.

Percebo o quanto nós – mulheres independentes, por vezes nos deixamos levar pelos parceiros, quanto nos moldamos em busca de um relacionamento que possa vir a dar certo. Esquecemos que temos história, convicções, vivências, consciência de quem somos. Li um post da Geofaust onde ela fala dos homens que veem as mulheres com mais de 30, como mulheres encalhadas ou disponíveis para o sexo fácil. Concordei em partes com os argumentos, mas penso que nós também consumimos os homens. A diferença entre eles e a gente é que a culpa nos persegue. Mulher livre e que sabe que pode também seguir seus desejos é vista por amigos e amigas como uma vagabunda. Em pleno Século XXI, depois de tantas lutas feministas, ainda sofremos o preconceito social de termos que ocupar modelos e padrões impostos pelos homens. Mulher livre e independente é vagabunda. Homem livre e independente seria um desafio. Mulher que teve muitos parceiros é mulher fácil. Homem com muitas parceiras seria experiente.

Não! Temos os desejos encravados no corpo e temos o direito de usufruir deles da maneira que nos convier. Se quisermos um homem para apenas uma noite, qual o problema? Se quisermos um homem para investir emoção e tempo, entretanto, temos que procurar melhor. Há homens pra namorar, homens para ser pai de nossos filhos e homens pra tarar, pra comer, pra foder, pra curtir somente aquele momento. O problema é que trazemos na alma ainda a ideia do amor romântico, do homem que nos tire da vida cotidiana e sem graça para um estado de êxtase amoroso.

Vamos combinar garotas: não há príncipes encantados. Não há homens que abram a porta do carro, paguem a conta, mandem flores e nos levem pro altar e depois pruma casinha branca com quintal e jardim. Eles estão por ai, nas baladas, nos barzinhos, nas rodas de café dos empregos que ocupamos, nos olhando sempre, esperando nossa permissão para mais um encontro sexual. Homem não quer compromisso. Nós os obrigamos à isso porque estamos apegadas ao que nossas avós e mães tinham guardado nas caixinhas de madeira coloridas por sonhos: o sonho de um homem ideal, que nos ame pra sempre.

E só por isso digo que seja com 20, 30 ou 50 anos as mulheres sofrem na busca de algo que nunca encontrarão. Homens são homens criados por mulheres que repassam preconceitos machistas para os homens que um dia poderão ser nossos parceiros sexuais ou de vida. Ou mudamos a formação de nossos filhos, para que sejam os homens preparados e éticos nas relações conosco ou continuaremos na mão de homens que pensam que são um corpo dependurado num pênis – algumas vezes nem generosos nem potentes quanto merecemos.

Não quero mais integrar cardápio masculino nem admito que dependurem-se em mim em busca do que não conseguem ser. Quando vemos o mundo como ele é, temos que ser mais objetivas e menos idealizadoras de algo que jamais teremos. Homens são sapos. Mesmo que os beijemos todos os dias para que virarem príncipes, serão sapos em essência.

Não seremos mais mulheres comestíveis. Vamos ser apenas consumidoras.

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