Quero processar todo mundo

Quando eu era estudante de Direito (oh god, que vergonha desse tempo) eu era, de fato, OUTRA pessoa. Mesmo. Mas sobre toda a minha escrotice eu posso falar em outros momentos. Uma das minhas crenças da época era que eu simplesmente detestava essa mania de processar-todo-mundo-por-qualquer-coisa. Bem típico de aluno de Direito, achava patético. Tipo, cresce, cara, vai ficar mendigando por qualquer mixaria?

Hoje eu penso de maneira diametralmente oposta. Eu sou super a favor de processar todo mundo, por tudo. Isso começou até por questões de posicionamento pessoal mesmo, porque hoje eu acredito inabalavelmente de que nossas ações individuais podem sim mudar o mundo. É por isso que eu ando de bike (não tanto quanto gostaria, mas sempre que posso) mesmo que o resto do mundo seja motorizado, é por isso que eu não como carne mesmo que o resto do mundo coma, é por isso que eu não jogo chiclete mascado no chão mesmo que a Rua XV esteja forrada deles. Porque eu me acho realmente o beija-flor da fábula que o Betinho contou há cents anos e que até hoje me emociona.

Pra não entrar no clichê do filme Corrente do Bem, uma fofura que te faz ter vontade de vomitar arco-íris. Enfim. Coisas que a gente faz, coisas sobre as quais não ficamos quietos passivamente, coisas que optamos por defender mesmo que sejamos uma voz solitária. Foi mais ou menos assim que praticamente todas as grandes mudanças no mundo aconteceram, e espero que assim continue sendo.

Essa questão do processar todo mundo entra um pouco nessa vibe, porque é um absurdo pessoas e empresas (especialmente empresas) pintarem e bordarem quando eles são o elo forte da corrente enquanto as vítimas ficam quietas pra não se incomodar.  Já deixei de buscar reparos em situações demais porque achei que o estresse não valeria a pena. Talvez não valha mesmo, talvez algumas demandas sejam tão exaustivas que nem valem a possível sentença favorável. Mas hoje, estou no mundo para incomodar.

justica

Um exemplo foi o processo que movi contra a Azul. Longa história, sei que fui burra por ter despachado meu computador e celular na mala. Foi pura inexperiência e também fui induzida ao erro pela atendente do check-in que disse que eu não poderia levar os equipamentos para a aeronave. Eu não quis discutir, não li os cartazes explicitando que equipamentos eletrônicos NÃO podiam ser despachados, blablabla, uma série de pequenos equívocos por parte da companhia aérea e no final das contas minha mala foi extraviada, o computador e celular sumiram.

Pensei durante alguns dias se deveria ir atrás disso, porque ai-meu-deus que saco ficar guardando documentos, formulários, fotos, ir em audiência e etc. Mas acabei chegando a conclusão de que sempre vale a pena. Mesmo que levasse anos. Porque companhias aéreas, PRECISAM ser responsabilizadas pelas merdas que fazem. De mala em mala que é extraviada e processos não são movidos, fazem com que eles continuem com essa política porca de falta de cuidado ao manusear nossas coisas, falta de cuidado ao instruir um viajante inexperiente, falta de fiscalização decente no rastreio das bagagens. Como assim durante dois dias eles simplesmente NÃO SABIAM onde estava a minha mala? Tem código de barras no papelzinho pra que?????? E como assim eu posso pegar qualquer mala e sair da sala de desembarque sem ninguém conferir se aquela mala é minha mesmo? Novamente, tem código de barras no papelzinho pra que? Mas essa coisa de perder mala, ou de recebê-la danificada, é tão mas tão comum que todo mundo já conta como certo que vai acontecer. E chega a agradecer quando a mala NÃO some! Vê se pode! Nossa, a Azul fez um excelente trabalho, ótimo atendimento, minha mala inclusive chegou ao destino junto comigo!

E, consequentemente, TODO MUNDO precisa ser responsabilizado pelas merdas que faz.

Um conhecido meu sofreu uma agressão não importa onde e não importa o motivo. Foi agredido. Fisicamente. Em público. E repito: não importa o que ele fez. Pessoas não podem ser agredidas, não importa a situação. Eu nem sei o que ele fez pra merecer isso. Mas, se ele tivesse feito alguma coisa hedionda, o agressor deveria ter recorrido aos meios legais também. Que história é essa de justiça com as próprias mãos? Em que idade nós estamos? Então, claro, o conhecido está processando o agressor.

Então, assim como em todas as minhas decisões de militância individual, eu espero que, de processo em processo as pessoas e as empresas e quem quer que seja aprenda a medir melhor a extensão dos seus atos. E quem sabe, talvez, de repente, numa dessas, a médio ou longo prazo, as coisas melhorem.

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