Essa não é a minha causa. [OU] Eu não fiz nada de errado.

As pessoas simplesmente não se interessam por nada que não as atinja diretamente. Elas não simpatizam e consequentemente não lutam por nada que não vá trazer um benefício para si. Brancos não lutam pela causa dos negros. Heteros não lutam pela causa dos LBGTT. Cis não lutam pela causa trans*. Não-ciclistas não lutam por mais ciclovias. Homens não lutam contra o machismo. E continua…

Isso me chamou a atenção de um jeito peculiar ao prestar atenção nas pessoas que curtem e compartilham algumas coisas que eu posto no Facebook.

E me lembrou um pouco um conflito que já tive algumas vezes na vida. Mas um em especial foi quando eu fui descaradamente injustiçada, julgada, condenada e torturada num dos piores finais de semana da minha vida por dois amigos. Testemunhas sabiam o que havia acontecido e não se posicionaram a meu favor. Afinal, era problema meu, certo? E isso não alterou em nada o relacionamento deles com os dois algozes – afinal, os dois não haviam feito nada contra eles. Não lhes ocorreu por nenhum momento condenar a atitude dos dois simplesmente porque o que fizeram foi condenável. Não. Só ganharia importância no coração de cada um deles se ferisse, de fato, o coração de cada um deles.

Microcosmos. Agora pense macro. É o mesmo raciocínio. Agora pense em extremos. Lembra quando a mamãe dizia que quem rouba um real rouba um banco? Pois é. Essa mentalidade de sobrevivência, de defender só o que é seu, de se interessar só pelo que lhe diz respeito diretamente, esse viver mecanicamente leva a tragédias muito maiores, como a conivência de muitos alemães com o holocausto ou as décadas e décadas de segregação racial pré-direitos civis nos Estados Unidos e coisas horrendas como essa:

Homem linchado

Um homem linchado, morto, em exibição. E até crianças assistindo a justiça sendo feita pelas próprias mãos – dos brancos.

(Sim, eu sei, estou super num momento ai-que-chata-ela-só-fala-do-movimento-dos-direitos-civis. Mas não consigo evitar, tô estudando isso.)

Mas hoje eu nem quero falar sobre quem linchou. Quero falar sobre aquelas pessoas que eram contra o linchamento. Que talvez eram contra até a segregação. Que não achavam que negros eram inferiores, impuros, contaminados, maníacos sexuais que deveriam ser contidos a todo custo. Aquelas pessoas que não fizeram nada porque, bem, o problema não era com elas e isso não interferia em nada no dia-a-dia delas. Não atrapalhava nem o caminho de casa para o trabalho. Aquelas pessoas que optaram em não se fazerem ouvidas porque aquela causa não era tipo muito bem delas. [agora acrescente um parágrafo semelhante trocando o linchamento por qualquer outro problema latente vivido por qualquer outra minoria oprimida]

Muita gente adora compartilhar a frase célebre do meu lindo Martin Luther King,

O silêncio dos bons

mas não sei se esse mesmo número de pessoas está quebrando o silêncio a respeito de causas que não sejam as suas. E vamos lá né, a classe média branca hetero cis [acrescente aqui outras identificações hegemônicas] tem muito poucas causas que podem chamar de suas para lutar, poderiam muito bem usar toda essa energia encubada para engrossar o coro de outros que sofrem das mais variadas formas, né? Mas, como já dito naquele post que eu traduzi AQUI, sobre a aflição dos privilegiados, escrito por Doug Muder:

George nunca exigiu um papel privilegiado, ele apenas aceitou acriticamente o papel que a sociedade legou a ele e atuou nesse papel com o melhor de suas habilidades. E agora de repente aquela sociedade não está mais funcionando para as pessoas que ele ama, e essas pessoas o estão culpando. Parece tão injusto. Ele não quer que ninguém seja infeliz. Ele só quer o jantar.

George só quer o jantar. Pois é.

Eu vou seguir pensando no quão culpado é o conivente. Espero que você pense por aí também.

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