Blumenau, cidade de ciclistas. Só que não.

Hoje mesmo eu estava lendo uma matéria na edição do mês passado da Vida Simples, e encontrei uma entrevista com um cara cujo nome não lembro mas lembro que ele era mega-importante na implementação da bicicleta como meio de transporte em diversas cidades. E algumas coisas me chamaram a atenção, especialmente no que diz respeito ao quanto que a administração da minha cidade – Blumenau – sempre foi tão burra a respeito de mobilidade urbana. Bem burra a respeito de N outras coisas também, mas vou ater-me aqui à mobilidade urbana.

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Ele falou que você não pode implantar um sistema pensando no número de ciclistas urbanos que temos hoje, mas sim pensar em todos os possíveis futuros ciclistas. Complementa isso dizendo que, nas cidades em que ele trabalhou ajudando na implantação de uma malha cicloviária e do fortalecimento da bike como meio de transporte, PRIMEIRO se criou a estrutura, e DEPOIS as pessoas usaram. Simples assim.

O que me lembra de quando tentaram implantar um sistema de aluguel de bikes por essas bandas germânicas. Aquilo não pode mesmo ter sido uma iniciativa séria. Foi totalmente formatado e implantado para NÃO ser usado, para dar ERRADO.  Era absolutamente inviável. Na época eu estava na “transição psicológica”, tentando me tornar mais desapegada e mais ecologicamente correta. Eu não tinha bicicleta ainda, mas recebi a notícia das bicicletas de aluguel com muita, mas muita animação. Seria a solução de todos os meus problemas. Eu nem acreditava que Blumenau fosse ser tão páfrente. Pois é. Nem era.

Eu não lembro com riqueza de detalhes de como funcionava o esquema, então algumas coisas podem estar equivocadas, mas essa ideia que ficou na memória já dá uma boa noção de como a coisa foi feita pra não funcionar.

Você só conseguia alugar a parada se tivesse cartão de crédito. Eu não tinha. Tinha que fazer o cadastro pela internet. Daí havia a opção de pagar o aluguel por um dia, com um valor absurdo, algo tipo $ 10.00 ou uma taxa anual que até valia a pena financeiramente. Ainda assim, essa parte do cadastro era algo que dificultava e muito a adesão pela complicação toda da coisa – muitas regras, cláusulas, opções, preços que variavam muito, condições…

Beleza, cadastro feito, conta paga. Aí a desinteligência continuava. Havia muito poucos terminais de bike pela cidade. Que eu lembre eram 3, um do lado de fora do terminal da Proeb, outro ao lado do Shopping Neumarkt e o terceiro no terminal da Fonte (também do lado de fora). Ou seja, numa cidade relativamente grande como Blumenau, os três terminais foram colocados NA MESMA RUA, a Rua Sete de Setembro. Um no começo da rua, outro no meio, outro no fim.

Uma vez retirada a bike, você tinha apenas meia hora (ou uma hora, sei lá) para usá-la e devolvê-la em qualquer um dos inúmeros 3 terminais. Daí era obrigado a esperar meia hora antes de poder retirar outra bike.

Veja bem…

Eu, morando na Vila Nova (que é praticamente centro) e trabalhando numa escola estadual no bairro Jordão teria que pegar um bus até a Proeb, pagar a bike, retirar a bike, pedalar até o terminal da Fonte, pagar bus DE NOVO e ir até o Jordão. Eu fiz as contas na época e gastaria tipo uns $ 20.00 por dia ao invés dos cinco pila habituais. Não, nem passou pela cabeça deles integrar as bikes e os ônibus.

Alguns meses depois os terminais foram desativados e o que foi divulgado? Que a iniciativa tinha falhado pela falta de adesão da população. Porque o blumenauense simplesmente não é do tipo bicho-grilo-ciclista. Justamente o que eles queriam ouvir desde o começo. Mas, né, se aquela bela bosta não fosse implantada, eles nunca iam poder afirmar com propriedade que Blumenau simplesmente não é uma cidade de ciclistas. Agora podem.

Bom, eu não acho que o blumenauense não seja ciclístico. Acho que tem uma pá de gente que não circula de bike simplesmente porque a cidade não tem a menor infra pra isso. E nem mentalidade. Os motoristas ainda são escrotos. Eu, razoavelmente experiente e atenta, já fui atropelada três vezes, a terceira delas com o luxo de ser levada ao hospital de ambulância. Tem pouca ciclofaixa, em poucas ruas e desconectadas umas das outras. No centro só tem – que eu lembre – dois bicicletários para “estacionar” a magrela. Um em cada ponta da Rua XV. Se vc quiser parar no meio da XV, vai ter q cadear ela num poste ou numa placa de trânsito.

Maaaas, nem tudo é história de terror. Agora tá rolando um super trabalho coletivo chamado BikeIt, onde os ciclistas avaliam quão “ciclisticamente amigáveis” são diversos estabelecimentos de Blumenau. Você também pode entrar lá e fazer a sua avaliação de qualquer estabelecimento. Se a padaria que tem perto da sua casa tem bicicletaário, ou se você conhece o dono e conseguiu 5% de desconto para quem for de bike, pode divulgar para que todos os ciclistas fiquem sabendo.

Não sei se essa moda pega, se vai incentivar mais pessoas a aderirem, se o comércio vai ver o potencial da coisa… Eu não costumo ser muito otimista com a cidade e seus habitantes, acho Blumenau uma bolha conservadora, reacionária e retrógrada a níveis infinitos, mas gosto de ver essas mentes revolucionárias se mexendo e tentando fazer alguma coisa. Apoio, divulgo e tento participar na medida em que a agenda permite, se não morro asfixiada no meio de tanto “a-gente-sustenta-os-vagabundos-do-nordeste”.

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