“Moderados” – Direitos das minorias pt. 1

Devido a algumas postagens de Facebook eu não estou conseguindo mais dissociar a luta pelos direitos LBGTT do movimento norte-americana pelos direitos civis.

Beije sua preta em praça pública

Essa imagem diz tudo para mim, pois justamente nos últimos tempos temos visto diversas manifestações pelos direitos LGBTT através dos beijaços. Um beijaço é uma manifestação que consiste em vários casais não-hetero se beijarem dentro ou diante de algum lugar que tenha reprimido tal manifestação de afeto previamente, como forma de protesto e repulsa por tal ação. E, claro, com o objetivo de chocar aqueles que rejeitam tais formas de orientação sexual.

Assim como as passeatas do orgulho gay, o beijaço é uma forma de se colocar na vitrine, manifestar seu orgulho por ser quem é e, a meu ver, “enfiar-se goela abaixo” dos que são contra sua manifestação e até mesmo sua existência. Porque para algumas pessoas, gays podem até existir, desde que se escondam em guetos. Opa, peraí, guetos não. Vida normal. Cidadãos normais. Direitos assegurados. Quando o beijaço e as passeatas deixarem de ser polêmicos, isso será um ótimo sinal. Quando ninguém mais der a mínima, ótimo! É porque finalmente eles são considerados normais de verdade. E não aquele normal entre aspas que muita gente fala: ele é gay, mas tipo assim, é normal, sabe? – se você realmente o considerasse normal, nem seria relevante destacar na conversa que ele é gay, assim como não se menciona que A Gabriela, minha amiga hetero, sabe? Enquanto ser gay (ou lésbica, ou bi, ou trans*) for um rótulo de classificação, destaque e diferenciação, sorry, mas eles ainda não são considerados e nem tratados como normais.

Aí a maluca da “psicóloga cristã” Marisa Lobo resolve promover um tal de beijaço hetero, a favor da família e em apoio ao igualmente lunático Marco Feliciano. (Como se os não-heteros fossem contra a família.) Como se heterossexuais precisassem de algum tipo de manifestação de “orgulho” para se auto-afirmarem e garatirem direitos.

Veja bem, amigo.

Se você é branco, homem, hetero, cis, classe média, você já faz parte da parcela hegemônica da população. Você já tem seus direitos assegurados por lei e já conta com inúmeras vantagens e privilégios não descritos em lei mas atribuídos a você em diversas situações da sua vida. Você não precisa lutar pela sua existência, o máximo que você precisa fazer é pedir um aumento para o seu chefe a cada ano. Você já é dominante e já tem a sua ideologia sendo imposta ao restante da população. Não há motivos para ter orgulho por oprimir o restante dos humanos. Mas, se você se orgulha de ter mais privilégios do que os outros, acha que meritocracia existe, acha que vai mal na vida quem quer e é preguiçoso, bom… É, você é um idiota mesmo e nem deveria estar lendo esse post.

As coisas não existem num vácuo. Tudo está dentro de um contexto. Então sim, manifestações de orgulho hetero são conceitualmente homofóbicas. Assim como as de orgulho branco são racistas. E etcétera, etcétera, etcétera. Quando se fala em orgulho em qualquer manifestação de minorias, não se está necessariamente dizendo que aquela minoria é MELHOR que você. A palavra orgulho é usada como um antónimo de vergonha, que foi usada ao longo da história para controlar e oprimir indivíduos. Orgulho neste sentido é uma afirmação de cada indivíduo e da comunidade como um todo. Tenho orgulho de ser quem eu sou = não tenho vergonha de ser quem eu sou.

Olhando a foto acima, quando foi promovido um beijaço negro, tudo parece fazer mais sentido. As pessoas brancas viam os negros e as suas manifestações públicas de humanidade como aberrações. Mais ou menos como vêem os não-heteros hoje. Diziam coisas parecidas com o que se diz hoje, provavelmente: tudo bem ser negro, mas tem que se beijar na minha frente? Que nojo! Tudo bem ser negro, mas não precisa falar comigo. Tudo bem ser negro, mas se me passar uma cantada, vou dar porrada! Até a lenda da libido exacerbada, da promiscuidade inerente que se aplicava aos negros é usada hoje em dia para animalizar os não-hetero.

Eu quase não consigo distinuir as diferenças entre as duas lutas e igualmente a resistência das pessoas em geral em aceitar e reconhecer os seus direitos. Fico pensando será que daqui ha 20 anos estarei estudando o movimento pelos direitos LGBTT da mesma forma que hoje estudo o movimento pelos direitos civis norte-americanos: com essa cara de espanto, não acreditando que eles tinham coragem de falar essas coisas! Não só tinham como ainda têm: só mudaram as vítimas.

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