“Moderados” – Bem-estar animal

Coincidiu essa semana de eu ter tido três oportunidades de pensar sobre os politicamente “moderados”. Colocando de forma BEM simplista, em uma discussão, sempre há dois lados radicais: o que é a favor de 100% de determinadas demandas, e o que é contra 100% delas. E daí entram os moderados, que procuram encontrar um meio termo entre os lados, uma conciliação, um “equilíbrio”. Aos poucos eu estou chegando à conclusão de que ser moderado é tão ruim e tão perigoso quanto estar do lado errado da discussão. Essa suposta neutralidade não favorece a ninguém exceto os que já detém uma posição de dominação. Acaba sendo apenas uma forma de perder menos privilégios quanto for possível, calando a boca dos que estão do outro lado. Mais ou menos o que diz nessa figurinha de facebook:

Neutro é quem já se decidiu pelo mais forte.

Neutro é quem já se decidiu pelo mais forte.

A primeira oportunidade na verdade é uma que já vem me acompanhando há anos, desde que eu decidi me tornar vegetariana. Eu sempre via a política bem estarista como um meio para atingir um fim. Partimos de uma realidade de extrema exploração e crueldde contra os animais, para um modelo “moderado”, ou bem-estarista, para então evoluirmos para o ideal de nenhuma-crueldade-ou-exploração. A posição moderada seria um degrau. Sempre entendi e até apoiei, e ainda ajo dessa forma.

Mas o que eu nunca parei para pensar é que o bem estarismo é um fim em sim mesmo, baseado em posicionamentos morais, éticos, filosóficos, políticos. Ele é o que é, e não a evolução de algo ou algo que vá evoluir para outra coisa. É aquilo ali e pronto.

O bem-estarismo, conforme eu achava ser, basicamente era: ok, vamos continuar explorando animais, mas PELO MENOS vamos fazer todo o possível para que não haja sofrimento nesses processos exploratórios. Ou seja, um não à crueldade – apenas. Se pelo menos conseguirmos isso agora, logo poderemos colocar em pauta a questão de “será que precisamos MESMO explorar animais?”

Só que se posicionar a favor do bem-estarismo implica endossar uma série de raciocínios. Implica acreditar que, pelo fato de os animais não poderem respeitar o direito de outros ou não entenderem o conceito de direitos, não podem ser colocados como possuidores de direitos morais. Coloca o ser humano como único ser legítimo de direitos (e da proteção delegada por eles), por ser o único que consegue pensar sobre direitos. E que não há nada inerentemente errado com o uso de animais para comida, como entretenimento e em pesquisa.  E eu não penso isso. Não penso isso mesmo. Não quero me possicionar nesse lugar.

Não há a menor possibilidade de eu acreditar que eu tenho MAIS direitos, que minha vida tem mais peso e mais importância simplesmente pelo fato de ser HUMANA. Eu não acredito que os interesses de um indivíduo são de menor importância pelo mero fato de se pertencer a uma determinada espécie.  (isso se aprende na Bíblia, né? tipo que deus inventou os animais para nos servir. pois é, não compartilho dessa catequização) Não considero animais não-humanos como propriedades do homem, não acho que posso dispor deles conforme eu bem entender.

(Mas antes que alguém venha defender a alface, acredito também que a capacidade de senciência esteja presente em alguns seres vivos e em outros não. Não encontrei ainda evidências convincentes de que a alface seja um ser senciente.)

Se eu parto do princípio que os animais não-humanos são seres sencientes (ou seja, têm capacidade de sentir – sensações e sentimentos – dor, agonia, medo, ansiedade), não posso, moralmente, fazer uso deles como se fossem máquinas sem alma (oi, Descartes!). Logo… Não existe meio termo, não existe posicionamento moderado que não esteja violentando a concepção de animais como seres sencientes ou eu como ser moral. É isso (moderação) que se chama hipocrisia?

Muito bem, Geórgia, parabéns, se ferrou, quero ver passar de vegetariana pra vegana agora.

As duas outras oportunidades para pensar a respeito da moderação vão vir em próximos posts.

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2 comentários sobre ““Moderados” – Bem-estar animal

  1. Pingback: “Moderados” – Direitos das minorias pt. 2 | Rainfalls and hard times

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