Professores: se dêem ao respeito.

Dentro do movimento feminista a gente vive lutando contra esse conceito de “se dê ao respeito”, uma missão quase impopssível para as mulheres, que invariavelmente, não importa como se vistam ou se portem, acabam sendo ofendidas, humilhadas e agredidas (física ou simbolicamente). Então a gente parte do princípio que o respeito se deve à todas as pessoas e ponto, independente de suas ações, comportamento, roupas, escolhas e decisões. Tá.

Mas eu vou ter que fugir por alguns instantes dessa regra que sempre considerei universal para falar que, se a pedagogia é um curso considerado “menor” e se os professores de hoje aparentemente não são respeitados como os de ontem, bem, é um pouco porque eles não se dão ao respeito mesmo. Muitos professores fazem questão de SAMBAR em cima de tudo que aprenderam na faculdade, rir da cara de todos os teóricos, ignorar solenemente todas as discussões da sala de aula pra pegar um diploma e ir pra sua própria sala de aula fazer um monte de merda. Porque eles acham que sempre souberam lecionar, que a docência é um dom natural, então a faculdade é uma mera formalidade que vai garantir a vaga no concurso público mas não vai acrescentar nada às vidas deles, tampouco às aulas. Porque a LDB, os Parâmetros e as Diretrizes Curriculares são só documentos pra bonito que trazem a listinha do que eles devem ensinar em cada ano letivo, e nada além disso – aliás, desafio você a encontrar um professor que tenha lido essas publicações e saibam quais princípios norteiam a política educacional nacional.

Eu estou na reta final do meu estágio. Durante essa jornada cansativa, exaustiva e complexa, eu devo dizer que estou mil vezes mais decepcionada do que já estava antes com relação à sala de aula e o que acontece lá dentro. E você, amigo, que não está diretamente envolvido com educação, tenha medo. Você acha que está ruim? Pois é. Está muito pior. Eu vi de tudo. De tudo mesmo. Vi agressões – mas não das que deixam marcas, claro, porque bater em crianças não pode mais. Vi professores proibindo idas ao banheiro até a criança fazer xixi na calça. Vi professores gritando no ouvido de aluno CRIANÇA até ele chorar. Vi professor comentando com outro na frente da criança que “esse daí não aprende nada mesmo, é lerdo.” Vi professor chacoalhando com força uma menina e dizendo que o lugar dela era no abrigo mesmo, porque nenhuma mãe merecia uma filha assim.

Ok, um parágrafo sobre violência real, pontual e catalogável. Agora um parágrafo sobre o que se faz em sala de aula com efeitos a longo prazo. Vi professor usando uma aula inteira de 4 horas para ensinar O NÚMERO TRÊS e mais nada a crianças de 5 anos. Escandalosamente matando tempo da aula. Vi professor não permitindo perguntas, fazendo 100% das atividades 100% controladas, tolhendo a criatividade e imaginação dos alunos. Vi professor de segundo ano totalmente imerso em métodos expositivos absurdamente ultrapassados – escreve no quadro, aluno copia, sabatina de perguntas e mais nada. Vi carteiras praticamente PREGADAS ao chão, nenhuma atividade em dupla, em grupos, nenhum jogo, nenhuma brincadeira, absolutamente nenhuma atividade atraente para essa faixa etária.

Daí alguém pensa que pá, esses profissionais já estão há séculos na sala de aula, aprenderam diferente, mas a nova geração tá entrando aos poucos, mudando aos poucos, em alguns anos tudo vai ser lindo e colorido! You think???

Vou para a aula na faculdade e tenho que escutar as colegas de classe contando das aulas delas e os absurdos que andam acontecendo. Uma dizendo que acha inadmissível ir ao banheiro durante a aula e ela não deixa, e não abre exceção. E que na reunião de pais uma mãe foi reclamar disso e ela disse que vai continuar não deixando e que “pelo menos seu filho vai aprender que tem hora pra ir ao banheiro”. Engraçado, eu aos 31 anos ainda não tenho hora para ir ao banheiro. Deu vontade, eu vou. E outra contando que o “método de disciplinarização” dela que mais tem dado certo é o seguinte: ela escolhe um e pega pra cristo. ???????????

Repito: ????????????????????????

Ela continuou a explicação dela dizendo que escolhe um aluno e dá punições exemplares pros outros entenderem que não podem fazer isso ou aquilo. Tipo antigamente quando se enforcava em praça pública, lembra?

Às vezes eu tenho vontade de ter um filho só pra ele ir pra escola e eu ir lá fazer um barraco tipo toda semana. Ser aquela mãe insuportável. Porque as professoras adoram falar que “o problema não são as crianças, são as mães implicantes”. Eu digo que não. Eu digo que o problema são as professoras mesmo.

Eu tive que pedir para a minha irmã, mãe da minha sobrinha que acaba de entrar no primeiro ano (e fiquei super feliz por ela já ter feito isso – eita mãezona ela!) o seguinte: Ana, você tem que ensinar a Júlia porque ela não sabe como se comportar nessas novas situações de escola. Diga para ela que, se ela quiser ir ao banheiro, deve pedir à professora. Se a professora não deixar, e ela estiver com vontade mesmo, ELA TEM QUE SAIR DA SALA, IR AO BANHEIRO E PRONTO. E depois você se vira com a coordenação. (eu falei isso porque uma semana antes uma amiguinha dela acabou fazendo xixi na calça na frente de todo mundo porque a professora não a deixou ir ao banheiro)

Veja bem: eu (e a Ana) tenho que ensinar as crianças a desobedecer os professores. Porque é o único jeito de ela sobreviver psicologicamente aos anos que virão. E vai que a Júlia de repente acaba tendo que fazer isso mesmo e a gente vai escutar lamentos do tipo as crianças não são mais como eram antigamente, elas não obedecem mais os professores.

É, amigo professor. Quer ser respeitado? Se dê ao respeito!!!!!!

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