Esporte: lugar de homem?

Percebi que é muito mais fácil para mim, Geórgia, ser atleta profissional do que para meus amigos homens que treinam comigo e correm mil vezes melhor. Especificamente dentro do atletismo, esporte que pratico, o caminho é muito menos pedregoso para mulheres. O número de praticantes mulheres é muito menor, a competitividade nas mulheres em termos gerais é muito menor, e, portanto, a concorrência é muito menor. Veja você que não há absolutamente nada de excepcional na minha performance e ainda assim, fiquei bem colocada em todas as competições que participei e hoje faço parte da FMD (Fundação Municipal de Desportos) da minha cidade, ou seja, represento Blumenau em corridas de 10K em pista. E ganho para isso. Tendo começado a correr há pouco menos de um ano.

Não, eu não estou me gabando por ter conquistado uma posição privilegiada em tempo curtíssimo. Eu lamento isso. Lamento porque estou onde estou porque as minhas amigas mulheres simplesmente não praticam esportes. E dentre as poucas que os praticam, ficam em aulas de lambaeróbica, step ou circuitos em academias de 30 minutos. E não tem absolutamente nada de errado com isso, ressalto. Quero que cada vez mais mulheres dancem dança do ventre e façam pilates, porque qualquer atividade esportiva é válida. Estou falando que é culturalmente interessante perceber que as mulheres crescem não se interessando por coisas que os homens se interessam. E vale lembrar, não existe instinto competitivo, existe cultura competitiva. Criamos homens competitivos mas não mulheres.

Arthur Brittan fala disso em seu livro Masculinity and Power:

“A imagem mais popular da masculinidade na consciência de todos os dias é aquela do homem-herói, do caçador, do competidor, do conquistador. Uma coisa é certa: é a imagem que é glorificada na literatura, na arte e na midia ocidental… Em certo sentido, a crença no homem-caçador ou no herói não parece ter nenhum fundamento no mundo quotidiano onde vive a maioria dos homens. Os homens têm pouquissimas ocasiões de ser heróis, a não ser como passatempo ou nos esportes. 0 homem-caçador foi transformado no ‘homem-sustentáculo da familia’. As chances de heroísmo surgem apenas no campo dos esportes, e não na floresta durante uma perseguicão sem tréguas para alimentar a tribo”

Então sim, enquanto nós somos educadas para as tarefas do lar, para cuidar de crianças, para sermos contidas e modestas, eles ainda são educados para matar um leão por dia. Como não dá bem pra matar um leão por dia nas ruas de nossas cidades, a grande oportunidade de destaque e heroísmo para os homens é conquistar medalhas, superar limites, vencer competições, derrubar o oponente. Não existe apenas a divisão sexual do trabalho, existe também a divisão sexual do esporte, dentro do que é esperado de nós dentro da sociedade ou do grupo em que estamos inseridos. Força, resistência, determinação e busca de limites (indispensáveis qualidades para atletas), afinal de contas, são características associadas à masculinidade.

Kolnes, em Heterosexuality as an organizing principle in women’s sport, diz que

“Enquanto se espera que os homens sejam fisicamente fortes, espera-se que as mulheres sejam mais frágeis do que os homens com quem interagem. Quando homens e mulheres fogem a essa regra há uma tendência em categorizá-los como desviantes. Um homem com fragilidade física é tido como ‘feminilizado’ enquanto que uma mulher com força física é rotulada como ‘masculinizada’. Para participar de esportes meninos têm que ser tradicionalmente masculinos, ou seja, fortes, impetuosos e agressivos. A possibilidade da mulher fazer parte desse mundo esportivo é menor, afinal, esporte nunca teve como finalidade tornar a mulher mais feminina.”

Sendo assim, tem sido também uma luta feminina (feminista?) entrar para o mundo dos esportes, quando historicamente nossa participação como atletas foi vedada. E, acredite se quiser, em 1965 aqui no Brasil o CND (Conselho Nacional de Desportos) baixou uma deliberação que instruiu entidades esportivas no Brasil sobre a participação feminina em modalidades esportivas, estabelecendo: “não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, pólo, halterofilismo e beisebol”. Pois é.

Isso tudo para não entrar na discussão de como se lida com as atletas na mídia e cobertura esportiva. Ok, as mulheres podem ser atletas, mas como enfeite. Dificilmente são retratadas por suas qualidades esportivas, e sim pelas sua beleza. A maior parte do tempo dado à coberturas esportivas é dedicada aos homens. Quando inclui mulheres, incorre em dois tipos de erro: ou compara a performance de uma mulher com a de um homem, ou tece comentários idiotas sobre forma corporal, beleza, sensualidade. Ou seja, as conquistas femininas no esporte são menos importantes do que as barrigas chapadas.

Claro, só tenho a agradecer às feministas que vieram antes de mim e deram a cara a tapa para garantir hoje o meu espaço dentro do atletismo. Áquelas que romperam fronteiras, brigaram, lutaram, tiveram sua sexualidade questionada mas abriram portas para o reconhecimento que ainda estamos ampliando. Gostei de me sentir um pouco transgressora ao me tornar atleta. Sempre gostei de transgressões. E um beijo de admiração às minhas amigas atletas que estão junto comigo nesse barco.

LEIA MAIS:

http://agenciapatriciagalvao.org.br/mulheres-de-olho-2/onu-mulheres-lanca-projeto-no-rio-para-impulsionar-igualdade-de-genero-por-meio-da-pratica-esportiva/

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