Por que meu filho não gosta de estudar?

Você está na pré-escola e tudo é tão legal e tão lindo e tão divertido e você conta os minutos pra ir pra escola, e ama a sua professora quase na mesma intensidade que ama a sua própria mãe – tanto que o que a profe fala tem mais valor do que aquilo que os pais falam. Quando cheguei em casa toda boba pedindo pra escovar os dentes porque mãe, a minha professora disse que tem que escovar os dentes três vezes por dia!!!, minha mãe quis me matar porque todos os dias antes desse era um trabalho hercúleo para me fazer escovar os dentes. Então sim, minha profe era BEM mais inteligente do que a minha mãe, e se ela dizia que tem que escovar os dentes três vezes por dia, ela tem razão – mesmo que a minha mãe tenha dito exatamente a mesma coisa todos os dias durante tantos anos.

A estrela dos meus sábados de manhã.

A estrela dos meus sábados de manhã.

Daí vem a pergunta que não sai da minha cabeça: quando é que tudo muda? O que acontece at some point que faz com que ir à escola seja um saco, um fardo, uma obrigação chata para a maioria das crianças? Aquelas que dizem gostar de ir à escola geralmente justificam: gosto de encontrar com meus amigos, gosto de fazer bagunça. Ninguém diz que gosta de ir pra escola simplesmente porque gosta de estudar, porque gosta de tais e tais disciplinas, porque gosta do professor. Ninguém. E se você conhece alguém, me mostre, por favor.

Eu tenho dedos pra apontar. Se ir para a escola é um saco, se você odeia, se seu filho odeia, se seu sobrinho odeia, agradeça às professoras do primeiro e segundo anos. Tá, às vezes elas conseguem manter a animação e quem estraga tudo é a professora do terceiro ano. Mas de modo geral é durante esses dois anos letivos que tudo de ruim acontece.

Ao chegar no primeiro ano de repente eles não são mais “crianças”, e sim “homenzinhos” e “mulherzinhas”. Então, chega de brincadeira, o negócio agora é sério. E ninguém aprende brincando, né? Começa a rotina do terror: bate sinal, fila pra entrar em sala, por ordem de tamanho, meninos separados de meninas, entra na sala, senta em fileiras separadas, fica em silêncio, faz oração, pega o caderno, copia tarefa, repete o que o professor fala, copia o assunto, leva esporro porque deixou o lápis cair no chão, leva esporro porque olhou pro lado, leva esporro porque esqueceu a escova de dentes em casa, leva esporro porque não sabe a resposta, copia mais um pouco, leva esporro porque demora pra copiar, leva esporro porque a letra é feia, copia mais um pouco, arruma o material, vai pra casa.

Surpreendente que ninguém quer voltar no dia seguinte, né?

Você PENSA que hoje em dia tudo é diferente, porque Piaget e Vygotsky já falaram o que tinha que ser dito há tempos, e depois Freinet e Steiner vieram pra fazer tudo ainda mais lindo, então já deu tempo de tudo estar de fato, na prática, mais lindo, né? Pois é, só que não. Não tá nada mais lindo, tá tudo igual. Conseguimos eliminar punições físicas parcialmente – eliminamos aquelas que deixam marcas. Ainda rola chacoalhão, empurrão, e muito, mas muito abuso de autoridade, muitas ameaças, muita humilhação.

O choque de realidade que tomei ao fazer meus estágios depois de ter me encantado com todos os teóricos da pedagogia foi algo de embasbacador. Do tipo que deixou marcas a ponto de eu chorar ao assistir, 10 anos depois, The Wall Pt. 2, do Pink Floyd. Tá, sou dessas de choro fácil. Mas nesse caso específico foi choro de decepção – porque o videoclipe de cents anos atrás ainda é real – e choro de tristeza – porque pobres das nossas crianças…

Pode ter certeza, meu amigo: tá tudo igual.

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