Pirei em Rousseau

E então que eu estou fazendo o curso The Modern and the Post-Modern, um curso da Wesleyan University oferecido 0800 pelo Coursera. E eu, que já não tenho quase nada pra fazer, tô me desdobrando em 3 para dar conta de faculdade, estágio, TCC, preparação de aulas, TRABALHO e agora mais esse curso lindo e delicioso.

Na semana passada um dos textos que tive que ler pro curso foi o Discurso Sobre a Origem da Desigualdade. E pá, eis que minha cabeça quase explodiu. Ou ainda vá explodir, vai saber.

Segundo o texto, antes de existir Estado, existia o homem vagando por aí. Pré-família, pré-ligações-românticas, pré-ligações-sociais. (Não me interessa muito se é realmente verdade, não citem antropólogos dizendo que o homem nunca foi um animal solitário. Interessa são as conclusões. Enfim.) As pessoas se encontravam de maneira fortuita e casual, faziam o que tinham que fazer – inclusive se reproduzir – e seguiam seu caminho. Esse mesmo homem, antes de dispôr da razão, dispunha de apenas dois instintos: auto-preservação e a repulsa ao ver outro ser sensciente sofrendo. Só.

Para ele, a pena – ou a compaixão – precede a reflexão. A gente não se importa ao ver outra pessoa sofrendo porque pensamos a respeito e chegamos a conclusão que o sofrimento é injusto. A gente se importa porque se importar é uma reação natural. O fato de haver sofrimento é tudo que precisamos saber para sentir repulsa à situação de sofrimento.

E foi a desigualdade, que surgiu junto com o Estado, que nos fez mais e mais estranhos um ao outro. É a desigualdade que cria uma dinâmica que não é baseada na auto-preservação e compaixão, e ainda faz pior: aumenta a nossa SATISFAÇÃO ao ver outras pessoas sofrendo.

Com a desigualdade, sentimos que, se tivermos mais coisas iremos nos sentir superiores. Pois com a criação do Estado e o homem vivendo em sociedade é que começamos a nos comparar uns com os outros e a sentir que quem tem mais, é melhor. Então, se temos mais, somos melhores e sentimos satisfação ao perceber que outros têm menos – a pobreza do outro é a prova de nossa superioridade.

Quando nos comparamos com os outros, começamos a agir pelos outros, de modo que possamos parecer da maneira que queremos que os outros nos vejam. Bem diferente de como agiríamos em nosso estado natural. A estima pública ganhou valor.

Assim, conforme a desigualdade vai seguindo a sua dinâmica, nós começamos a imitar as pessoas que achamos serem melhores do que nós, tornando-nos assim menos e menos nós mesmos. O que nasce aqui é a vaidade. Começamos a pensar que precisamos de certas coisas, certos bens, certos luxos. Conveniências tornam-se necessidades.

E o texto vai além e além e além, mas eu queria focar justamente nisso. Nessa necessidade que nós temos de parecermos alguma coisa aos olhos de alguém que não dos nossos próprios. A vaidade.

Essa vaidade que ele fala não se restringe à vaidade de passar maquiagem. Ou a vaidade que se satisfaz no acúmulo de bens ou coisas que achamos que nos trazem status. É a vaidade de criarmos uma imagem do que nós somos, que não é quem somos na verdade. E por conta disso criarmos necessidades que não temos para sustentar essa imagem.

Pensei no iPhone. E nessa necessidade constante de fazermos upgrades como se esse luxo fosse essencial. Porque ter iPhone 3, por mais que ele faça tudo praticamente igual ao 5, não é a mesma coisa que ter um iPhone 5 – perante o olhar do outro.

E ao ler isso eu me senti orgulhosa porque tô felizona com o meu celular da geração passada e mesmo que tivesse grana para comprar o tal iPhone 5, não o faria – juro!!! Porque o meu atende à todas as minhas necessidades. E nem são bem necessidades, vá lá, as pessoas há 20 anos não tinham telefones celulares e viviam bem de boa.

Só que…

Então me caiu a ficha. Meu “orgulho” em si nada mais é do que vaidade também. Produzida por pressão social. Porque eu olho com desdém para as pessoas que eu vejo como vítimas desse instinto consumista e descobri que eu me esforço para projetar uma imagem de alguém que está acima da superficialidade do consumismo. Ou seja: a vida em sociedade também me fez acatar um papel e eu estou tão distante do meu estado natural quanto qualquer feliz proprietário de um gadget.

Concluo que não há escapatória. Rousseau me pegou de jeito.

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