A Aflição dos Privilegiados

Em uma cena memorável do filme de 1998, Pleasantville (em que dois adolescentes de 1998 são transportados para o mundo P&B de um programa de TV da década de 50), o pai da perfeita família de TV, Parker, retorna do trabalho e diz as palavras mágicas: “Querida, cheguei!”, esperando que essas palavras fossem conjurar uma esposa sorridente, filhos adoráveis e jantar na mesa.

Dessa vez, porém, nao funciona. Nada de esposa, nada de filhos, nada de comida. Confuso, ele repete a invocação, como se ele tivesse falado errado da primeira vez. Depois de procurar pela casa, ele sai andando na chuva perguntando lamentosamente para esse universo defeituoso: “Cadê meu jantar?”

Aflição dos privilegiados. Não estou levantando isso para discutir filmes antigos. Conforme a cultura evolui, as pessoas que se beneficiavam da antiga invariavelmente se vêem como vítimas da mudança. O mundo costumava servir como uma luva para eles, mas agora não mais. Gradativamente, eles se encontram em situações não-familiares que parecem injustas ou mesmo não-seguras. Suas preocupações costumavam ocupar o palco central, mas agora eles têm que competir com as queixas anteriormente invisíveis de outros.

Se você for um dos “outros-agora-visíveis”, tudo isso soa como manha se comparado com os problemas que você encara todos os dias. É tentador atacar essa resistencia dos privilegiados com raiva e insultos.

Tentados, mas também, penso eu, equivocados. Os privilegiados ainda são privilegiados o suficiente para fomentar uma contra-revolução, se o seu senso de direito frustrado prevalecer.

Portanto eu acho que vale a pena gastar um ou dois minutos olhando para o mundo através do olhar de George Parker: ele é um bom pai-de-TV da década de 50. Ele nunca pensou em ser o vilão. Ele nunca quis sufocar a humanidade de sua esposa ou reforçar um conformismo burro em seus filhos. Ninguém nunca perguntou a ele se o mundo deveria ser preto e branco, o mundo simplesmente o era.

George nunca exigiu um papel privilegiado, ele apenas aceitou acriticamente o papel que a sociedade legou a ele e atuou nesse papel com o melhor de suas habilidades. E agora de repente aquela sociedade não está mais funcionando para as pessoas que ele ama, e essas pessoas o estão culpando.

Parece tão injusto. Ele não quer que ninguém seja infeliz. Ele só quer o jantar.

Níveis de aflição. Mas mesmo quando aceitamos a realidade da aflição-privilegiada-branca-masculina de George, precisamos manter o entendimento de que os cidadãos menos privilegiados de Pleasantville sofrem uma aflição de uma forma muito diferente. (Margaret Atwood resumiu o diferencial gênero-poder assim: “Homens temem que as mulheres rirão deles. Mulheres temem que os homens as matem.”)

George merece compaixão, mas sua até então esposa/dona de casa ideal, Betty Parker (e as outras personagens com papéis subservientes) merecem justiça. As queixas de George e Betty não são equivalentes, e se as tratarmos da mesma forma, estaremos cometendo uma injustiça com Betty.

Tolerando Dan Cathy. Agora vamos dar uma olhada em um caso mais recente da vida real.

Uma das melhores coisas que aconteceram em julho no Chick-fil-A brouhaha foi uma série de posts no blog Owldolatrous, onde um homem gay (Wayne Self) fez o que pôde para argumentar sobre a aflição dos privilegiados.

Os privilegiados nesse caso são representados pelo presidente do Chick-fil-A, Dan Cathy, que mexeu em uma colméia de abelhas quando denunciou a “atitude orgulhosa e arrogante” daqueles que apóiam o casamento entre pessoas do mesmo sexo, dizendo que eles “estão trazendo o julgamento divino para nossa nação”.

Seus comentários chamaram a atenção para os milhões que a família fundadora do Chick-fil-A contribuíram para organizações anti-gay, e levaram a convocações para boicotar seus restaurantes.

Para o qual seus defensores responderam: A tolerância é uma via de mão-única? Cathy estava apenas expressando as crenças genuínas de sua fé. Porque os gays e seus apoiadores não podem respeitar isso?

“Não há nada de mútuo nisso.” Self começa seu post reconhecendo a aflição de Cathy, mas se recusando a aceitá-la como equivalente à sua. Cathy está sofrendo porque as pessoas estão falando coisas suins a seu respeito e se recusando a comprar seus sanduíches. Enquanto isso, 29 estados (incluindo o estado natal de Self, Louisiana) permitem que estabelecimentos demitam gays por serem gays. Há 75 países que Self e seu companheiro não podem visitar em segurança, porque homossexualidade é ilegal e (em alguns deles) punível com morte.

A família Cathy doou $5 milhões para organizações que trabalham para manter esse estado de opressão. Comentários de Self:

Isso não é sobre tolerância mútua porque não há nada de mútuo nisso. Se nós concordarmos em discordar sobre esse assunto, você sai dessa discussão como membro integral dessa sociedade e eu não. Não há “viva e deixe viver” nesse assunto porque Dan Cathy está gastando milhões para bem especificamente NÃO me deixar viver. Eu não estou tentando fazer isso com ele.

Ofensiva Cristã. Aquele post obteve mais de um milhão de page views e (na última contagem) 1595 comentários, incluindo algumas ofensivas de cristãos conservadores. O follow-up de Self respondeu a um comentarista que escreveu que apoiava o Chick-fil-A como

[a] uma empresa com um fundador que fala por quem aparentemente é minoria hoje em dia.

Em outras palavras, eu especificamente me sinto acuado pela mídia em geral e o establishment liberal e gays ativistas simplesmente por ser um cristão que acredita na Bíblia. Pelos programas de TV, filmes, noticiários e música, tudo é intolerância às minhas crenças conservadoras. Sou rotulado como HOMOFÓBICO e ODIADOR… Eu nem temo nem odeio homossexuais.

Self traz um post de Bristol Palin, onde ela tira sarro da sugestão de um entrevistador de que ela se recusaria a ter um parceiro gay no programa “Dancing With the Stars”.

Em suas mentes simplistas, o fato de que eu sou cristã, de que eu acredito nos planos de Deus para o casamento, significa que eu tenha que odiar gays e odiar até mesmo estar na presença deles. Bem, eles estão certos em uma coisa: havia ódio naquela sala de mídia, mas o ódio era deles, não meu.

… Para a esquerda, “tolerância” significa concordar com eles sobre, bem, tudo. Para mim, tolerância significa aprender a conviver e trabalhar uns com os outros quando não concordamos – e nunca iremos concordar.

Como Bristol Palin, o comentarista de Self vê a si mesmo como vítima de intolerância. Ele não se vê odiando ninguém. Ele apenas quer preservar o mundo onde ele cresceu, e não se dá ao trabalho de imaginar como outras pessoas sofrem naquele mundo.

Ele quer o jantar.

Ésopo II. Self responde com uma estória: uma sequência da fábula de Ésopo do rato que salva um leão.

[Uma história é] a única maneira que eu conheço para me referir a algumas dessas coisas sem recorrer a palavras que machucam ou ofendem, ou acabam com a discussão.

O conto de Ésopo termina com o rato e o leão como amigos, mas Self observa que eles ainda não sãp iguais: o Leão é o Rei da Selva e o Rato… é um rato.

Na sequência de Self, o Leão oferece o Baile do Reino, para o qual os ratos nunca são convidados, porque eles causam nojo a muitos dos animais maiores. Nada pessoal, o Leão explica a seu amigo, as coisas simplesmente são assim.

Nesse ponto, Self interrompe a estória para explicar porque (apesar do fato de seu comentador se sentir “acuado pela mídia em geral e o establishment liberal”) ele está colocando os cristãos conservadores como o Leão e os gays como o Rato: Não é ilegal ser um cristão em nenhum Estado. Você não pode ser demitido pela sua cristandade. Cristãos podem se sentir acuados pelas críticas, mas gays são literalmente acuados por crimes de ódio. Cristãos podem sentir como se as pessoas estivessem tentando silenciá-los, mas o legislativo do Tennessee debateu uma lei que tornaria ilegal pronunciar a palavra gay em escolas públicas. (The senate aprovou.)

Há uma enorme diferença entre dizerem que você é supersticioso ou antiquado e dizerem que você é uma abominação que não merece viver. Há uma enorme diferença entre dizerem que você está agindo com ódio e dizerem que Deus odeia você.

Eu fui gay e cristão a minha vida inteira. Acredite em mim: ser cristão é mais fácil. Nem se compara.

Aflição leonina. Mas o Leão tem motivos para se irritar com o Rato? Claro. O Rato estã criando confusão ao pedir para ir onde sua presença não é desejada. O Rato é “orgulhoso” por esperar que as regras mudem para se adequarem a ele. Porém, Self admite que o Leão provavelmente não odeie ou tenha medo do Rato.

Eu não acho que você me odeie. Certamente não acho que você tenha medo de mim. Nem a Bristol Palin. Ela provavelmente até tenha pessoas LGBT que chame de amigos. Ela apenas discorda com elas sobre se elas deveriam ser convidadas para a festa (a festa, nesse caso, sendo o casamento)

Mas aqui está o problema: a base daquela discordância é a crença dela que seus relacionamentos são intrinsecamente melhores que os nossos.

Há uma palavra para esse tipo de declaração: supremacista.

Ah, agora chegamos nas “palavras que machucam ou ofendem”. Aqui está o que ele quer dizer com isso:

Supremacia é o hábito de acreditar ou agir como se sua vida, seu amor, sua cultura, você mesmo tenha maior valor intrínseco do que aqueles das pessoas que são diferentes de você.

Self vê uma atitude supremacista ao ver no comentarista um

senso de conforto consigo mesmo como um juiz adequado das minhas escolhas, idéias ou comportamentos,… indisposição de avaliar a desiqualdade em um debate onde eu preciso pedir igualdade a você… [e] indisposição de reconhecer seu envolvimento pessoal no seu sentimento de superioridade ao invés de botar a culpa em Deus.

[O terceiro ponto é um que nunca é dito demais: Muita interpretação e leitura selecionada é necessária para encontrar “o plano de Deus para o casamento” na Bíblia. Essa doutrina tomou corpo por méritos próprios, ou porque racionaliza a supremacia heterossexual? Em outro lugar, eu desenvolvi um ponto semelhante sobre como os Protestantes de direita adotaram a bizarra doutrina católica de que a alma vem na concepção: a política anti-aborto vem antes, e a teologia mudou para racionalizá-la.]

Agora vamos terminar a fábula: Não-convidado, o Rato entra na festa. Os convidados se calam em choque, o Leão está furioso, e a discussão tem a violência como consequência: o Leão joga o Rato pela janela, acabando tanto com a festa quanto com a amizade.

A lição: a supremacia por si só não significa ódio. Você pode até ter afeição pela pessoa a quem você se sente superior. Mas a supremacia contém as sementes do ódio.

Supremacia se torna ódio quando a sensação de superioridade inata é desafiada abertamente. Supremacia é o motivo pelo qual você e Bristol Palin tem mais revolta pela sua própria inconveniência do que pela opressão legítima de outros.

Nós podemos falar sobre a sjubjugação das mulheres depois, querida. Onde está meu jantar?

As escolhas de George Parker. Durante toda a sua vida, George tentou ser um bom moço de acordo com o esperado pela sua sociedade. Mas a sociedade mudou e ele não, então ele não é mais visto como o bom moço. Ele se sente terrível por isso, mas o que ele pode fazer?

Uma possibilidade: Talvez ele pudesse aprender a ser um bom moço de acordo com o esperado por essa nova sociedade. Seria difícil. Ele teria que abrir mão de alguns de seus privilégios. Ele teria que examinar seus hábitos para ver quais deles incorporam presunções de supremacia. Ele teria que aprender a ver o mundo através dos olhos dos outros, ao invés de simplesmente presumir que eles irão assumir seus papéis sociais designados. Inicialmente, ele provavelmente cometeria muitos erros e seus ex-inferiores iriam corrigí-lo. Seria embaraçoso.

Mas há uma alternativa: contra-revolução. George poderia decidir que seus hábitos, suas expectativas, e a sociedade onde eles se encaixam está CORRETA, e essa nova sociedade está ERRADA. Se ele se juntasse com os outros pais (e mães com pensamentos de direita como aquela no poster) de Pleasantville, talvez eles poderiam forlar todos a voltarem a seus papéis tradicionais.

A qescolha que ele vai fazer dependerá muito das outras personagens. Se elas não forem firmes em suas convicções, a contra-revolução pode parecer fácil. (“Pronto, pronto, querida. Eu sei que você está chateada. Mas seja razoável.”) Mas se o ressentimento delas for implacável, tornar-se um bom moço no novo mundo pode parecer impossível.

Apenas o caminho intermediário – firmeza junto com compreensão – tem uma chance de domar George e trazê-lo de volta à sociedade em novos termos.

Aflição dos privilegiados hoje. Uma vez que você entenda o conceito de aflição dos privilegiados, você o verá em todos os lugares: os ricos sentem-se “punidos pelos impostsbrancos acreditam que eles são as vítimas reais do racismo; a liberdade religiosa dos empregadores é ameaçada quando eles não podem negar a contracepção a seus funcionários; anglo-falantes se ressentem pelo bilinguismo — e assim por diante.

E o que é o movimento Tea Party se não uma contra-revolução? Ele vem disfarçado de responsabilidade religiosa e fiscal, mas é só arranhar um pouco a superfície e você irá encontrar a aflição dos privilegiados: a mudança tirou algo de nós e nós queremos de volta.

Confrontar essa aflição é perigoso, porque nem a aceitação nem a rejeição é bem o certo a se fazer. A aflição geralmente é bem real, então rejeitá-la prontamente apenas faz de você uma pessoa de mente fechada e sem compaixão. Nunca dá certo pedir empatia dos outros sem oferecê-la em primeiro lugar.

Ao mesmo tempo, minha queimadura de sol de homem-heterosexual-branco não pode ter permissão para competir em termos iguais com o seu ataque cardíaco. Para mim, pode parecer justo jogar cara ou coroa para quem vai conseguir a primeira ambulância, mas não é assim. Não tente me dizer que a minha queimadura de sol não dói, mas não aceite o cara-ou-coroa.

A abordagem do The Owldolatrous — reconhecer a aflição enquanto continua a destacar a diferença em escala – é o que eu vi de melhor até agora. Em última instância, os privilegiados precisam ser vencidos. Seu senso de justiça precisa ser engajado ao invés de espancado. Aqueles que ainda quiserem ser boas pessoas precisam ter esperança de que tal resultado ainda é possível nesse novo mundo.

*****************

Só porque eu amei muito esse texto que foi postado no Blogueiras Feministas, decidi traduzí-lo.

O original está aqui: http://weeklysift.com/2012/09/10/the-distress-of-the-privileged/

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Um comentário sobre “A Aflição dos Privilegiados

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