Pela adoção

Por mais que eu me esforce, não consigo entender essa necessidade biológica que as pessoas tem de terem seus “próprios” filhos, herdeiros da sua carga genética, sangue do seu sangue. Para mim esse é um conceito totalmente alienígena.

Por que ter seu “próprio” filho???

Sempre se viu a adoção como um direito das famílias, o direito de ter um filho caso não pudesse gerar o seu. Mãe infértil, pai com baixa contagem de esperma, tudo bem, pega aquela coisinha ali e chama de filho, assim você vai ter um herdeiro para a sua fortuna e sua existência nesse mundo não terá sido em vão. A criança é aceita a partir da necessidade do casal. As pessoas sentem pena do casal, coitado, que não pode gerar seus próprios herdeiros.

O que as pessoas tem dificuldade em ver é a adoção como UM DIREITO DA CRIANÇA. O direito de toda criança de ter pais, de pertencer a uma família, de ter uma história familiar, de não crescer em um abrigo. As pessoas tem que se sensibilizar com a dor das crianças abandonadas. Se há crianças abandonadas, deve-se encontrar um lar para elas! – E não o contrário, se há pais sem filhos, que se encontrem crianças.

Você sabia que em Blumenau há pelo menos dois orfanatos?

Eu só soube 3 semanas atrás. Fiquei chocada. Fiquei fechada em meu mundinho cor de rosa e ignorei que essa cidade também tem problemas dessa magnitude.

A verdade, em minha opinião, é que a adoção não ganha mais adeptos porque ainda somos, essencialmente, uma sociedade extremamente preconceituosa – e maldosa – e primitiva.

Preconceituosa porque… até adotamos, mas tem que ser branco, parecer comigo. Ou… tem que ser bonito como todos da nossa família!

Maldosa porque… até adotamos, mas tem que ser bebê ainda, filho de mãe saudável.

Primitiva porque… não adotamos, preferimos ter nossos próprios filhos, alguém para carregar nossos preciosos genes.

O que fazer com as crianças maiores, e diferentes da nossa etnia, por exemplo, já com seus 7 anos de idade, que não carregam nossos genes? Essas não valem? Essas não merecem carinho, amor, uma oportunidade de ter educação, saúde, convívio? Ah, essas o governo que dê um jeito!

Engravidar, entretanto, não permite decisões. Você não escolhe se seu bebê vai ter nariz fino, se vai ter os olhos azuis da sua avó ou o cabelo liso do seu marido. Você não escolhe nem se vai ser saudável, se vai nascer perfeito ou ter algum tipo de deficiência. Mas nesse caso, tudo bem se nascer com todos os tipos de problemas possíveis, afinal, são os desígnios de D-us, aquele mesmo que escreve certo por linhas tortas.

Já a adoção é vista quase como um mercado, onde escolhemos um objeto que vamos adquirir. Podemos escolher a criança mais bonitinha, a mais saudável, a mais bem comportada, o bebê que chora menos. Podemos???

Alguém me responde, tá certo isso?

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8 comentários sobre “Pela adoção

  1. Vc devia ler “After Nature”, da Marilyn Strather.

    Ou um texto meu que se chama algo como “mãe biológica, mãe genetica” e nao sei que

  2. Taí um tema espinhoso para caramba, né? Mas não acho que o cenário atual seja apenas de responsabilidade das ‘famílias’, que enquanto instituição, penso ser consenso que estão pra lá de falidas. Cada um faz o que dá como dá. Acho que o que basicamente está errado é isso. A gente pensa que a criança é – problema – responsabilidade de quem os fez. É o individualismo extremo. Enquando enxergarmos as famílias como ilhas, será sempre assim. Vi isso na maternidade, por exemplo, se eu levo um dos meus bebês para uma reunião com ‘caramadas’ inclusive, o comportamente de todos – ou quase todos (salvo de alguma outra mãe que sabe do sufoco que esses serzinhos lhes impõe) são completamente indiferentes às necessidades da criança. Relegam a mãe exclusivamente, quase nunca nem ao pai. Ninguém ajuda, coopera, interage ou reveza. Pois simplesmente não é ‘problema’ delas.
    Quase ninguém entende DE VERDADE que as crianças são responsabilidade de todos nós, os animais, o meio-ambiente, a política, o compromisso com uma nova maneira de interagir nas relações, a construção de uma nova moral.
    Então, na pesrpectiva da adoção, é que há esta distorção do quase endeusamento de quem faz o ‘favor’ de dar lar a uma criança cujos os verdadeiros (ironia) responsáveis ou culpados estão ausentes.
    Defendo, claro, a liberdade. De parir de fato, de adotar ou de não ter. Mas torço muito prum dia em que nos alimentaremos em refeitórios comuns, lavaremos roupas em lavanderias publicas e nos revezaremos na educação dessa nova leva de gente. Até por que não tem isso de ‘nosso filho’, pois depois sai da barriga, ele é do mundo, né?

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