O Feminismo e eu

Eu vou falar o que eu acho/achava sobre feminismo. Comecei a pensar no assunto num certo Dia Internacional da Mulher. Sempre achei essa data insignificante, mas naquele ano (2002 ou 2003), ela me irritou profundamente. Pensei: mas que diabos estão comemorando?

Fiz até um post furioso no meu blog da época. Agradeci as mulheres que queimaram soutiens e morreram queimadas, mas isso era passado. O que é que EU, hoje, tenho a ver com isso? Ganho rosas no semáforo por ter nascido mulher? Nossa, mas que mérito!

O fato é que eu fui criada em uma família definitivamente fora do padrão. Eu não soube, durante a infância e adolescência, o que era preconceito, o que era racismo, o que era sexismo. Lá em casa todo mundo sempre foi igual, principalmente no relacionamento entre meu pai-drasto e minha mãe.

Nunca houve um que mandasse mais, um que servisse o outro, um que fosse submisso aos caprichos do outro… Até quando a briga ficava mais feia, nunca um se calou por respeito ou medo do outro. Pra mim, feminismo era tão antiquado que não fazia sentido nenhum ser feminista em pleno século XXI!!! Eu achava que todas as conquistas já tinham sido feitas, que não havia mais nada pelo qual lutar, e que na verdade as feministas não passavam de lésbicas frustradas com um desejo secreto que Freud explica.

É engraçado como é difícil para nós vermos as realidades que estão fora do nosso mundinho.

E eu não vi mesmo. Eu não vi até EU me sentir vítima das circunstâncias, vítima do homem, vítima do posicionamento da sociedade e sua atitude com relação ao papel da mulher.

No Dia Internacional da Mulher há dois anos, eu não estava mais vociferando sobre a inutilidade do feminismo. Muito pelo contrário. Eu chorei. Chorei em quase todas as homenagens bobas que vi na TV. Chorei quando senti que ainda falta TANTO para que eu seja vista com o mesmo respeito e consideração que seria vista se fosse homem. Chorei quando vi que a primeira coisa que esperam de mim é que eu seja bonita, muito antes de esperarem que eu seja inteligente, ou uma boa professora, ou qualquer outra coisa. Chorei quando lembrei de todos os comentários que escutei NA VIDA, justificando que qualquer atitude “estranha” de qualquer mulher era por causa da sua feiúra, ou da sua solteirice, ou da gordura, ou da sua TPM.

E daí, semanas depois, eu resolvi analisar um certo acontecimento trágico de um passado distante não como uma “fatalidade”, algo que aconteceu por puro azar, mas sim como um resultado de toda uma estrutura focada no poder-fazer do homem. Resolvi analisar meu relacionamento não como uma relação de serventia obrigatória, mas sim como um resultado da minha vontade de me encaixar e ser uma mulher completa (mulher completa é aquela com marido e filhos, não é?), de ser uma Desperate Housewife, e que ele também é produto de tudo isso que nos cerca.

É realmente muito ilusório pensar que está tudo bem, que mulheres estão em pé de igualdade com o homem, quando na verdade há uma míriade de coisas que acontecem nos bastidores, o preconceito velado, as piadinhas sem graça, o salário mais baixo, a violência…

Já faz dois anos, mas estou começando apenas. Estou lendo, estou me informando, estou vendo as coisas com outros olhos, e tenho certeza que ainda vou escrever um bilhão de besteiras enquanto descubro esse novo caminho…

E o pensamento interno mais recorrente em N momentos do meu dia é: “você não falaria assim comigo nem isso para mim se eu fosse um homem, falaria?”

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